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Lições da Missão – Capacetes Azuis

As lições da missão no Haiti para a ONU – Vista com desconfiança pela população desde o início, Minustah deveria forçar a ONU a avaliar efeitos indesejados das missões.

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Quando a cientista política Anne Lange viajou pela primeira vez ao Haiti, já conhecia alguns países da América Latina e Caribe. Porém, o estado da nação caribenha a deixou abalada. “O Haiti era um país absolutamente arruinado, mesmo em comparação com outros países da região”, afirma. “Uma grande parte da população lutava pela sobrevivência. As instituições não funcionavam, e o próprio solo estava completamente esgotado devido a décadas de monocultura.”


… a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Haiti Minustah) já estava ativa no país há mais de dez anos. Desde então, nenhum grande progresso foi reportado. Pelo contrário: em 2016, o país sofreu novamente um grande retrocesso com a passagem do furacão Matthew.

….  por causa do grande contingente, a Minustah enfrentou dificuldades desde o início. “Desde seu começo, em junho de 2004, a presença da Minustah no Haiti tem sido problemática, causando até mesmo divisão” na sociedade… 

… Capacetes azuis sob liderança brasileira teriam cometido atos brutais contra gangues criminosas, mas também contra partidários do presidente deposto e até mesmo contra pessoas que não estavam envolvidas. “Esse incidente continua muito presente quando os haitianos criticam a ONU”, afirma Lange.

No decorrer da missão, uma série de escândalos alimentou a desconfiança. Há vários casos de soldados da ONU que comprovadamente participaram de estupros e abusos sexuais de cidadãos haitianos e na prostituição de menores de idade. “Cada escândalo reforçou a narrativa de um Haiti ocupado e a hostilidade latente contra as tropas internacionais”, frisa o canadense Lemay-Hébert.

Epidemia de cólera

… em outubro, surgiu uma epidemia de cólera. Ao menos 600 mil pessoas ficaram doentes, e entre 8 mil e 10 mil morreram.

Logo após o início da epidemia surgiu a suspeita de que o vírus teria se originado do campo dos capacetes azuis nepaleses. Apesar de, um ano depois, uma comissão da ONU ter confirmado a suspeita, e outros especialistas terem concluído que o surto poderia ter sido evitado com medidas simples de prevenção, a ONU até hoje não reconheceu sua culpa. “A ONU prefere mencionar as precárias condições de higiene para se furtar da responsabilidade”, sublinha Lemay-Hébert.

… Se a ONU algum dia decidir pagar reparações por causa da epidemia de cólera, o dinheiro provavelmente será gerenciado de forma coletiva e investido na construção de escolas e hospitais. Porém, no caso de um país completamente arruinado, isso seria apenas uma gota d’água no oceano.

Repensar as missões de paz

Afinal, no que diz respeito ao Haiti, Lemay-Hébert e Lange concordam que falta um judiciário que funcione, estabilidade política e – até hoje – segurança. “Sim, eu vi policiais”, afirma Lange, “mas seguramente eles estão apenas nos locais onde diplomatas ou organizações estrangeiras estão estacionados.”

A avaliação de Lemay-Hébert não é muito mais positiva. “Sem os capacetes azuis, o governo de transição teria sido vítima da onda de violência após o golpe de Estado”, opina. A estabilização estrutural de longo prazo falhou amplamente. A polícia, pelo menos, está melhor equipada do que no passado.

Lemay-Hébert diz que, como consequência, as Nações Unidas deveriam reavaliar suas operações internacionais. Para ele, a Minustah mostrou que, em se tratando de missões de paz, mais não significa “melhor”.

Ele diz que “as consequências indesejadas de missões de paz e da ajuda ao desenvolvimento” se manifestaram na Minustah de forma muito mais clara do que em qualquer outra missão da ONU, e é preciso analisar exatamente como a presença de milhares de funcionários da ONU e de organizações não governamentais pode causar impactos na vida da população local: o aumento dos preços de imóveis em Porto Príncipe já é uma realidade.

O país está diante ainda de uma fuga de cérebros. “Quando a caravana humanitária partir, os haitianos que forma qualificados, que trabalharam nos projetos, deixarão o país em massa”, diz Lemay-Hébert, acrescentando que, se a missão no país deixou algum legado, este seria que “a Minustah força a ONU a debater, de uma perspectiva completamente nova, as consequências indesejadas das missões de paz”.

Por Jan D. Walter

Fonte: https://www.cartacapital.com.br/internacional/as-licoes-da-missao-no-haiti-para-a-onu